Eu não gosto de chorar. Hoje reparei que não tenho chorado. Arrasto os meus dramas numa corrente invisível. Na velha caixa de lembranças sufoquei a saudade. Tranquei e coloquei a chave no ponto mais alto sobre as cortinas amarelas do meu quarto. Agora só me falta esquecer. Mas sinto-me calada por dentro, uma floresta sem o som dos passarinhos, no silêncio absoluto, só consigo sentir a terra húmida e cheia de raízes, lá todos estão assustados. A propósito, depois de um dia opaco de densidade duvidosa, olho para dentro e não te vejo mais. No vazio, o ecoar das batidas secas. O coração adormece e os olhos permanecem esgueirados, estão fixos na lembrança que traz a tua voz clara. E as minhas arestas estremecem como as cordas de uma guitarra. A pressão do ar rarefeito, o sufoco, a surdez absurda. Sinto-me obtusa, a solução é esticar-me, criar espaços entre as juntas para ver se a dor passa e o meu pensamento vira sonho ou se transforma noutro.
A solução será criar espaços maiores entre as juntas ou conseguir algo que as fixe bem?
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